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Um Olhar Sobre a Narrativa de Pokémon Sun & Moon - Parte 1

Eu mal havia dormido duas horinhas quando o despertador tocou às 2h59 da madrugada para me alertar que meu Pokémon Sun pré-baixado finalmente estava liberado para ser jogado: o portal para a região de Alola finalmente estava aberto! Logo de começo, sou surpreendido com uma sequência animada que não é a abertura, mas um prólogo extremamente intrigante apresentando dois personagens-chave: Lillie e Nebby. Era o começo de outro jogo totalmente voltado para a história!
História não era o ponto forte de Pokémon em sua origem. Antes ela servia apenas para contextualizar a jornada para completar a Pokédex. Nesse sentido, Pokémon Black & White Versions representaram uma revolução. Com uma abertura que funcionava como prólogo e a substituição da clássica introdução ao mundo Pokémon (que envolvia o jogador escolhendo seu avatar e então vendo-o virar um pequenino Treinador quadriculado em seu quarto) por uma cena da Professora Juniper indo até a casa do protagonista entregar seu Pokémon sob o letreiro de Game Freak Presents. A história assumia protagonismo na aventura. De muitas formas, a V Geração marcou o ápice do desenvolvimento narrativo que vinha ocorrendo de forma gradual desde Pokémon Crystal Version.
Na VI Geração, esses elementos se mantiveram: a maior capacidade gráfica do Nintendo 3DS permitiu que a cinegrafia da série fosse ampliada. Jogar Pokémon agora também envolvia assistir a pequenas sequências que auxiliavam na imersão, na apresentação de personagens, na dramatização de cenas. Infelizmente, a evolução gráfica não foi capaz de salvar a história de Pokémon X & Y, que falhou em tentar emular a mesma profundidade de seus predecessores diretos, até seguindo as mesmas fórmulas, como a inclusão um debate complexo (vida e morte, efemeridade da beleza e potencial destrutivo do homem contra o debate entre verdade e ideal e a liberação dos Pokémon), os rivais amigos mais presentes (Shauna, Trevor, Tierno e Serena/Calem contra Bianca e Cheren) e o personagem-chave trágico (N contra AZ). Em contrapartida, a Game Freak foi capaz de usar o 3DS para elevar o nível da história contada em Pokémon Omega Ruby & Alpha Sapphire a outro patamar em comparação ao Ruby & Sapphire originais.
A construção narrativa de Sun & Moon já começa na composição geográfica e cultural de sua região. Alola está para o Havaí como Kalos está para Paris: estão lá representadas as pessoas com seus típicos trajes aloha, a hula, as flores, os personagens e os locais que possuem nomes tipicamente havaianos, a mescla entre o tradicional e o moderno e claras adaptações de localizações havaianas reais como a praia de Waikiki, a cratera do vulcão Diamond Head, o porto de Honolulu, a baía de Hanauna e o tanque de piscicultura de Heeia.

Os Deuses de Alola
Um dos aspectos mais legais de Pokémon Sun & Moon é como os jogos captam muito bem os aspectos culturais do povo havaiano e os adapta para o mundo Pokémon de forma bastante respeitosa. Um exemplo disso é a forma como os alolanos lidam com seus próprios Pokémon lendários, recusando-se a classificar muitos deles como "Pokémon lendários". Para os alolanos, os quatro Tapus que protegem suas ilhas são deuses guardiões, como na tradição havaiana. Tapu Lele, Tapu Koko, Tapu Bulu e Tapu Fini estão respectivamente relacionados aos quatro principais deuses da tradição havaiana: Kane, o deus criador, Ku, o deus da guerra, Lono, o deus da agricultura, e Kanaloa, o deus dos mares.
Cada Tapu é igualmente admirado e temido pelo povo alolano e o nome de cada ilha da região remete à cor de seu respectivo deus guardião:
  • Ula'ula, vermelho em havaiano, é protegido por Tapu Bulu;
  • Akala, rosa em havaiano, é protegido por Tapu Lele;
  • Melemele, amarelo em havaiano, é protegido por Tapu Koko;
  • Poni, roxo em havaiano, é protegido por Tapu Fini;
De fato, a ligação do povo de Alola com os Tapu é tão forte que isso influencia diversos aspectos de suas vidas e é a principal característica que separa os alolanos dos outros habitantes do mundo Pokémon que conhecemos previamente. Apesar da relação entre Pokémon lendários e divindades estar longe de ser nova, sempre houve um distanciamento maior entre as criaturas fantásticas e os moradores das regiões onde suas lendas afloravam.

Enquanto os kantonianos não viam com reverência nenhuma das criaturas que conheciam, o povo de Johto, por outro lado, adorou Ho-Oh e Lugia até quebrar a confiança de tais Pokémon e serem punidos por isso com seu quase completo abandono. Em Hoenn, as guerras entre Groudon e Kyogre fizeram com que seu povo primitivo enxergasse seus lendários nativos apenas como uma ameaça, até a chegada de Rayquaza vir como resposta às suas orações. Logo em seguida, o povo voltou a ser atormentado, desta vez pelos Regis e tratou de selá-los em diferentes partes da região, mandando seu líder Regigigas para os confins de Sinnoh. Embora esta seja uma região que ainda presta respeito e certa veneração aos deuses responsáveis pela criação, preservando seus santuários, erigindo monumentos em sua homenagem e até tendo uma igreja para adoração, há praticamente zero contato entre essas divindades e os humanos. Já os povos de Unova e Kalos reconhecem seus lendários e até as histórias e mitos relacionados a eles, mas não há uma reverência a eles como mais que isso.
Enquanto os outros Pokémon lendários com associação a divindades encontram-se selados ou isolados em seu próprio canto, longe do povo, os Tapu fazem presença na vida dos alolanos de forma bem forte. Eles podem ser vistos atuando para defender as ilhas e seus habitantes de ataques, lutando entre si em minitorneios para decidir qual deles é o mais forte, e até se revelando para aqueles humanos seletos em quem depositam grandes expectativas. Enquanto os outros lendários eram alvos de ataques de equipes malignas que buscavam explorá-los, os Tapu parecem ser temidos o bastante para que ninguém ouse se levantar contra eles. O medo e o respeito são tanto que o povo da Ilha Ula'ula ainda preserva as ruínas de uma vila que fora destruída pela ira de Tapu Bulu, quando pessoas construíram um mercado em um local que lhe era sagrado. Não à toa que tapu é a palavra havaiana que pode significar tanto sagrado quanto proibido, separado, restrito.
A presença dos Tapu também justifica o fato de os alolanos possuírem o desafio da ilha como um rito de passagem para seus jovens Treinadores em vez da famigerada busca pelas Insígnias das outras regiões. No desafio da ilha, os Treinadores viajam pelas quatro ilhas que compõem Alola (ou seja: as ilhas de cada Tapu) e são testados não apenas em batalhas, mas também em sua coragem, habilidade de observação, testes de conhecimento, capacidade para resolução de problemas, entre outras coisas. Ao completar todas as provas de uma determinada ilha, eles devem enfrentar os Kahunas, que são Treinadores eleitos e aprovados por seu respectivo Tapu. Kahuna é o termo que em havaiano pode se referir tanto a uma pessoa que domina conhecimento em qualquer área em particular, como também ao líder religioso de um povo em específico. Foram também as lutas entre os quatro Tapus para decidir quem era o mais forte que inspirou a criação do Battle Royal!
Mas por que os Tapu não se isolam como os demais Pokémon Lendários? É possível que a necessidade de os Tapu estarem despertos e sempre em prontidão seja um reflexo da própria natureza hostil do arquipélago de Alola. Desde os anúncios das primeiras Ultra Bestas, os jogadores puderam observar que havia algum elemento assustador e sinistro em Sun & Moon. Tal aspecto está de fato presente nos jogos e parece ser bem comum ao local aonde a aventura se situa: basta observar como as descrições dos Pokémon na Alola Dex são mais perturbadoras que nas demais regiões, frequentemente fazendo menção à cadeia alimentar dos Pokémon. Há uma selvageria maior, inerente à região.
Isso também pode ser observado na história da região de Alola, como relatado nos livros da Biblioteca de Malie. É dito que no passado os deuses guardiões travaram uma grande e terrível batalha contra o Pokémon Lendário (Lunala ou Solgaleo), da qual nenhum lado conseguiu sair vencedor. Os Tapu também serviam como líderes dos exércitos dos reis de cada ilha, mas pararam depois que viram a destruição que causavam sempre que usavam seu Poder-Z, Guardião de Alola. Curiosamente, é fortemente implicado que o cristal necessário para ativar o Guardião de Alola, o Tapunium Z, foi um presente do Pokémon Lendário com quem eles haviam previamente lutado.
Os livros chegam a relatar DOIS confrontos, pelo menos, entre os deuses guardiões e o Pokémon Lendário. Considerando a facilidade com a qual os Ultra Portais se abrem na região de Alola e a ameaça enorme que as Ultra Bestas representam, é bastante provável que os Tapu ainda sejam necessários para proteger o povo de Alola dos perigos aos quais estão constantemente submetidos. Talvez até seja uma forma de proteger a natureza e a vida nativa do arquipélago. Como as outras regiões gozam de um maior estado de paz, nenhum de seus lendários é realmente necessário no presente, ao passo que o povo de Alola ainda precisa de alguém que os defenda.
Nesse sentido, os Kahuna também seriam eleitos não apenas para testar seus jovens Treinadores, mas também para atuar junto aos Tapu na defesa da região. Isso é mostrado claramente no jogo quando múltiplos Ultra Portais são abertos, permitindo a passagem de diversas Ultra Bestas, e os Kahunas e Tapu de cada ilha se juntam para enfrentá-los. Assim, a monarquia de Kalos e as guerras internas podem ter acabado, mas os Tapu mantêm sua atuação na frente de batalha pelo povo da região.
Se em Pokémon Black & White, a Game Freak havia criado uma dezena de lendários inúteis com pouco propósito (um Pokémon lendário que… dança? Outro que representa… vitória?) e X & Y falhou miseravelmente em usar toda a riqueza das mitologias europeias a seu favor (em especial os mitos celtas), Sun & Moon vieram para mostrar que a série ainda é capaz de ser inspirada de forma interessante e significativa para tornar a jornada para ser um Campeão ainda mais atrativa! Desta vez eles criaram um jogo no qual os Pokémon "lendários" possuem uma história própria, uma razão de existência e uma mitologia que não se resume a ser "deus de alguma coisa". Ver como isso se reflete na cultura do povo alolano é um das coisas mais belas de Sun & Moon e que tornam a experiência de viajar por esse belo arquipélago ainda mais enriquecedora!
Na próxima parte, vamos voltar do céu à terra e falar dos humanos de Alola!

Considerações finais:

  • A Copag lançou este mês a Coleção Sol & Lua das Estampas Ilustradas Pokémon. Curiosamente, todos os personagens humanos que aparecem nesse conjunto de cartas apresentaram nomes traduzidos ou adaptados para o português:
Lillie à Lílian
Hau à Hibi
Ilima à Luan
Professor Kukui à Professor Nogueira
  • Embora não seja a primeira vez que o nome do professor regional muda no Brasil (Professor Carvalho e Professor Sicômoro estão aí pra isso), a mudança nos nomes dos outros personagens parece uma decisão curiosa. Será que foi exigência da The Pokémon Company International? Afinal eles queriam que a Panini traduzisse os nomes dos protagonistas do mangá. Sobre as traduções em si, sinceramente não entendo porque Ilima virou Luan, mas não achei de todo ruim. Há porém um ponto que me faz considerar essas traduções desnecessárias: enquanto eu sei que os nomes Hibi e Nogueira são traduções dos nomes Hau e Kukui (no caso, Hibi é uma redução de hibisco), não consigo apoiá-la porque os nomes originais foram escolhidos por serem nomes havaianos e essa é uma beleza dos jogos, ver expressões e nomes havaianos serem utilizados nos jogos. Eu espero que haja uma restrição a essas traduções para que não percamos o elemento cultural do jogo. É verdade que outros países também traduziram nomes. Os EUA utiliza Tapu, mas o Japão usa Kapu. Na Espanha Hau se chama Tilo, na Fraça Kukui é Euphorbe e Ilima é Liam na Itália. Agora resta ver se esses nomes serão padronizados para o anime e o mangá quando saírem aqui ou se são apenas do TCG. Até lá, continuarei usando os nomes americanos.

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